Ninguém nesse mundo é tão bom quanto todos nós unidos - Irmã Conceição e Olga Maia

Marcamos de encontrar com Olga e Conceição numa praça ventilada e aprazível, onde a luz do sol é filtrada por acácias e ipês, derramando uma sombra quase de veludo sobre os passantes. Ao reconhecer as duas, algumas pessoas paravam para trocar palavras agradecidas. Uma moça com lágrimas nos olhos pediu para abraçar Conceição, dizendo baixinho em seu ouvido: “Obrigada, obrigada, muito obrigada”. Um homem de celular em punho fez questão de fotografar a dupla, que sorria com naturalidade e presteza.

Olga e Conceição não são ricas nem famosas, mas gozam do prestígio que o trabalho bem feito angaria. Também não são médicas, mas seus nomes são citados quando o assunto é crianças e adolescentes com câncer. Cada uma ao seu modo, construíram redes de parcerias e apoio que sustentam dois dos mais importantes núcleos em prol do paciente com câncer.

Maria da Conceição Dias de Albuquerque, a Irmã Conceição, dirige o Lar Amigos de Jesus, que oferece hospedagem, alimentação, apoio psicológico e atividades sócio-recreativas a crianças e adolescentes em tratamento. Já Olga Lúcia Freire Maia é o nome à frente da Associação Peter Pan, que surgiu ligada ao Hospital Infantil Albert Sabin e que hoje é um centro de referência em diagnóstico precoce e tratamento humanizado. Com a força do voluntariado, o poder das campanhas e a ajuda de doações, a Associação conseguiu concluir o Hospital Peter Pan em 2010, e atualmente está trabalhando para ampliar a estrutura, que acolhe pacientes de todo o Brasil.

VÓS: Eu queria saber se vocês se conheciam e quando isso aconteceu.

IRMÃ CONCEIÇÃO: O que eu me recordo é que, quando eu pertencia a uma outra instituição, eu conheci a Olga indo fazer uma ação musical lá, com um grupo de crianças. E a partir daí a gente começou ter uma convivência. Já estávamos direcionadas para o trabalho com as crianças com câncer

OLGA: Eu acho que eu me lembro dela primeiro do que ela se lembra de mim. Eu morava fora e, quando cheguei em Fortaleza, há quase 20 anos atrás, me determinei trabalhar com crianças com câncer. Busquei a Casa Amigos de Jesus, instituição da qual a Irmã Conceição fazia parte. Mas tem um ditado que diz que “o homem põe, mas quem dispõe é Deus”. Então, ao invés de trabalharmos juntas na mesma instituição, nós trabalhamos juntas olhando na mesma direção. Porque alguma coisa me direcionou para o hospital propriamente dito. E lá eu fui criando outro tipo de trabalho, que se complementa com o dela.

VÓS: O que fez cada uma de vocês decidirem se dedicar a essa causa?

IRMÃ CONCEIÇÃO: Isso foi uma consequência da minha vida junto às pessoas pobres e doentes. Gosto muito de visitar os hospitais, é uma forma de irmos ao encontro daqueles que estão mais indefesos. Se for criança, mais indefesa ainda. Foi um chamado, não foi proposital. Foi algo que eu colhi. Fui visitar no Hospital Albert Sabin uma pessoa que estava doente, vi aquelas crianças e comecei a idealizar – junto com o grupo ao qual pertencia – uma casa de apoio para esses meninos.

OLGA: Se a pessoa imaginar o que é câncer, criança e falta de leito… Se as pessoas soubessem o que é um jovem não revelar que tem febre, porque está faltando leito e ele não quer ficar no corredor…

IRMÃ CONCEIÇÃO: Eu vejo tudo – viu Olga? – como um aprendizado. A gente aprende caindo. Toda queda pra mim é vitória, porque eu me levanto, não fico no chão. Quando me olho no espelho, eu digo: “Você é linda!”. Porque vou me encontrar com pessoas que precisam de motivação, dinamismo, alegria, fé. Eu nunca perco a fé, sou a pessoa mais motivada do mundo. Não sei se herdei isso do meu pai ou da minha mãe. Nunca tive tristeza na minha infância, só tive felicidade, e isso facilitou na minha missão de querer sempre fazer o bem, de me colocar a serviço do outro.

OLGA: Por conta da vida, a gente vai fazendo escolhas. Eu construí uma família muito bonita, com três filhos. Como a Irmã Conceição, tive a felicidade de ter pais que construíram um lar de muita harmonia. Depois eu busquei um concurso, tive êxito, mas, de repente, me descobri muito incompleta. Sabia que faltava algo. Quando morei em Paulo Afonso, na Bahia, conheci um trabalho voluntário voltado para as crianças de rua. E aquele trabalho entrou no meu sangue como uma necessidade. Então foi isso. Foi a necessidade de não olhar mais só para mim, foi a consciência para entender que a felicidade não está dentro dos interesses próprios, ela é maior e está no outro. Está naquele que sofre, mas que vai sofrer menos se a gente estiver por perto.

IRMÃ CONCEIÇÃO: Eu não vejo a doença em si; eu vejo a pessoa que deve ser motivada. Às vezes uma palavra, um olhar já soergue. Isso foi tão simples, não foi difícil. Uma missão que foi dada não só a mim, mas a todas as pessoas que estão comigo, porque sozinhos não fazemos nada.

OLGA: Nós não viemos ao mundo para crescer, reproduzir e passar os outros pra trás. Viemos para sermos vencedores no mundo. A Associação Peter Pan não tem caráter religioso, mas tem uma frase de Jesus que eu gosto de repetir: “Eu venci o mundo”. Vencer o mundo é acreditar que apesar de tudo existe algo que você tem que construir dentro de você que vai fazer você ser mais poderoso.


VÓS: Para vocês, houve algum modelo a ser seguido?

IRMÃ CONCEIÇÃO: Eu nunca estive em Salvador, mas lá já existia uma referência importante, o Grupo de Apoio à Criança com Câncer. No Lar Amigos de Jesus, fizemos do nosso jeito. Agora já temos independência, autonomia e sabemos o que queremos. O que desejamos mesmo é dar satisfação às crianças, para que elas possam angariar saúde. A saúde depende muito do estado emocional e psicológico. O Lar é uma fraternidade. Não é um hospital, não é uma escola, não é uma creche. Procuramos construir uma família, junto com outra família que é a família religiosa. Nossos voluntários são pessoas leigas de todas as religiões. E nós não temos nenhum problema com nenhuma religião.

OLGA: Os trabalhos se completam. Diferentemente de uma casa de apoio, a Associação Peter Pan – que também nasceu da vontade de amar e de fazer o bem – foi se criando dentro de um hospital. As necessidades foram sendo transformadas pela Associação em projetos e, depois, em programas. Quando a gente estava iniciando a construção do segundo hospital, você imagina o desafio! Porque hoje já são mais de 2.500 crianças e jovens que estão ali todo dia. Diante disso, nós decidimos ampliar o atendimento e construir o Centro Pediátrico do Câncer, que é da Associação Peter Pan. Contudo, nós não entregamos para o Alberto Sabin, nós integramos.


VÓS: Vocês fazem ações importantes para angariar fundos para as instituições. E o que a gente percebe é que também sabem usar o poder da comunicação em prol de uma boa causa. Como é esse trabalho?

IRMÃ CONCEIÇÃO: Nós não temos um serviço de marketing. Existem voluntários, pessoas que se dedicam a alimentar a nossa rede social. Existe também um conselho fiscal e um conselho junto com o voluntariado, que faz reuniões mensais. Trabalhamos com metas. Em 2015, fizemos a Capela do Santíssimo, que era um desejo da comunidade. As crianças nos pediram que colocássemos computadores, então nós criamos o Espaço Digital, com computadores e videogames. Muitas pessoas conhecem o nosso trabalho e vêm ao nosso encontro para nos ajudar. Temos um bazar de coisas usadas, o programa Sua Nota Vale Dinheiro, o apoio das empresas – tudo em função do trabalho realizado. Muito simples também é a doação de material de reciclagem – o que é lixo para os outros, vale muito para a gente.

OLGA: A Associação Peter Pan, ao longo do tempo, foi se fortalecendo também em gestão. A gente traz pra cá a Fundação Dom Cabral (escola de negócios criada em 1976, em Belo Horizonte). E tem uma pessoa da Bahia que foi decisiva – que fez e faz o nosso telemarketing. Foi o telemarketing que salvou as ações da Associação Peter Pan ao longo de 13 a 14 anos. As pessoas doam. E desde que começamos a construir o Hospital Peter Pan (ou Centro Pediátrico do Câncer), chamamos uma auditoria externa de renome internacional para que ela dê seus pareceres e a gente possa chegar lá na ponta, lá naquela pessoa que dá R$ 1 milhão, como deu Eike Batista, e também na pessoa que dá R$ 10.

IRMÃ CONCEIÇÃO: O Lar Amigos de Jesus tem um direcionamento. A faixa etária (dos beneficiados) é de 0 a 18 anos, com acompanhantes. Algumas empresas colaboram financeiramente, dando suporte para manter os projetos sociais. Atualmente temos 22 funcionários. A meta para o ano de 2016 é aumentar, para atender melhor. Se precisamos de alguma ação, os voluntários saem como formiguinhas – são senhoras da sociedade, são médicos, são pessoas da Receita Federal –, trabalhando para suprir aquela necessidade. Agora, é claro que a gente quer sempre melhorar a captação de recursos, porque não podemos deixar faltar nada para as crianças. Apesar de que eu tenho muita fé e digo sempre: não quero mais do que o necessário.

OLGA: A nossa parceria com o Hospital Infantil Albert Sabin vem sendo estudada por gente de Brasília, de São Paulo, por grandes instituições, que querem saber qual o segredo. Há uma parceria harmoniosa entre voluntários, hospital e médicos. Dentro do hospital, nós temos programas sociais só voltados para a alegria, para o bem estar, para que as crianças se sintam seguras. O coração da Associação Peter Pan, que é o amor, se materializa nesses programas.

IRMÃ CONCEIÇÃO: Nossos voluntários gostam muito de artesanato e muitos se colocam a serviço da instituição. Nossas fontes de renda são essas. Temos um caminhãozinho que pega doações para o bazar de coisas usadas, com divulgação nas redes sociais e na televisão. Existe outro grupo de pessoas que ajuda no material de reciclagem e ainda outro que cuida dos cupons fiscais. Há  um programa social com a Justiça Federal, o Fórum Clóvis Beviláqua, os Juizados Especiais e o TSC. E também as promoções nos colégios e universidades. Numa delas, os estudantes realizam trabalhos, pesquisas, intervenções científicas e monografias dentro do Lar Amigos de Jesus. E nisso eles também trazem pessoas para colaborar em campanhas de alimentos. É uma rede que não para nunca, porque a juventude vai sempre se multiplicar. Nós não vamos atrás das empresas, elas é que vêm até nós. Tem um trabalho que é desenvolvido pela divulgação pela televisão, rádio… Eles vêm porque têm responsabilidade social. Acho muito válido.


VÓS: Irmã Conceição, nesse Natal, a atenção das pessoas se voltou para a campanha da Loja do Bem, que reverte recursos para o Lar Amigos de Jesus, a partir da venda de latas com inscrições como “alegria” e “amor”…

IRMÃ CONCEIÇÃO: A Loja do Bem é uma iniciativa belíssima, que tem uma energia muito boa. Eu acredito que essa energia veio do próprio Lar. Foi do Lar que emanou essa inspiração maior para todas as pessoas que se empenharam no projeto. A Loja do Bem é para ajudar em uma meta que ainda precisamos atingir: um espaço recreativo para as crianças e um novo andar. Porque está aumentando a demanda, são muitas pessoas doentes. Então nós precisamos crescer também. Nós nunca deixamos de atender uma criança que vem do Albert Sabin, do Peter Pan, de qualquer hospital. Eu amei a campanha da Loja do Bem. Tomara que todo shopping tenha uma. Tomara que o bem vá morar em todo canto, porque aí o mundo vai se transformar.

OLGA: Lembro que no primeiro McDia Feliz, as minhas primeiras visitas foram numa escola pública. Aí as pessoas me perguntavam: “Olga, tem sentido você vender um sanduíche que não tem um preço acessível numa escola pública?”. Mas todo dinheiro do sanduíche ia ser transformado em esperança, e aí eu respondia: “E quem disse pra vocês que eu estou aqui com a intenção de vender sanduíche?”. Porque é isso: você não está comprando um BigMc, você, meu amigo, você está dando um tijolo para um mundo melhor.

IRMÃ CONCEIÇÃO: Nisso, as pessoas vêem e começam a querer colaborar. Quem é que não quer ajudar uma criança que está sendo bem tratada, bem conduzida, com o tratamento sendo levado a sério? Então não falta nada. Graças a Deus, com a nossa gestão, nós implantamos vários profissionais dentro do Lar. Uma instituição não vai para frente se não tiver profissionais junto com os agregados, com os voluntários, com as irmãs que moram lá.  Recentemente fizemos o Espaço Boa Forma e duas suítes para os homens, que antes ficavam muito mal acomodados.

OLGA: Se o Bill Gates chegasse aqui no Ceará com R$ 10 milhões para a Associação Peter Pan – e aí eu falo como a Irmã Conceição –, nós não iríamos querer nenhum real a mais do que estamos precisando para ir concretizando cada necessidade e transformando em esperança e vida. Mas agora está faltando, e nós queremos. Estamos com uma campanha Empresas do Bem, Amigos Peter Pan, são 24 meses só. Ligue: 4008.4109. Diga que quer dar alguns poucos tijolos… A Associação Peter Pan transformou a história do câncer no Ceará. Diante de um dos maiores problemas de saúde pública, ela trabalha com a vida, ou pelo menos com a esperança dela. Para mim, a Irmã Conceição é um exemplo. Se cada um quiser se salvar, todo mundo vai morrer. Ninguém nesse mundo é tão bom quanto todos nós unidos.

Fonte: somosvos.com.br

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